
De que maneira a água pode propiciar reimaginar uma memória do corpo feminino na atualidade? Facilitadora da existência dos corpos, ela compõe a maior parte da matéria humana, que guia um jovem ao velho, sustentando a carne da potencialidade à realidade. Contudo, segundo Astrida Neimanis (2012), a ideia de incorporação aquosa é uma questão especialmente feminina. Lágrimas, suor, urina, fluido de excitação, menstruação, líquido amniótico, amamentação. Não se trata de reduzir o corpo feminino à sua biologia, conectando-o ao mar por ambos serem gestores da vida, mas de equipará-lo com o mesmo desejo da água de se movimentar, transformar, mudar de forma. Dar vazão a outras maneiras de ser e agir no mundo e, assim, a novas práticas feministas. A comunicação baseou-se nessas ideias iniciais. Utilizando-se de noções da teoria hidrofeminista, cunhada por Neimanis, o objetivo foi contemplar um pensamento sensível sobre a corporeidade do feminino nos anos 2020 em face das recentes catástrofes, sobretudo no Brasil.
A seca no Norte em 2023, o alagamento no Sul em 2024 e o atravessamento das emergências sobre as vulnerabilidades das mulheres, mostram que o corpo feminino ainda está de tal maneira atado à sua objetificação, que ele se torna alvo mesmo em experiências adversas. Assim, a partir da criação de um ensaio estético-político-poético tendo a água como instrumento de fluidez, de disputa e expansão, sugeriu-se uma reflexão sobre uma memória do corpo da mulher – compreendida para além de qualquer delimitação cultural – buscando fortalecer os lugares de interrogação sobre esse corpo na atualidade, para tornar possíveis os lugares de inovação (CHAUI, 2024). Dispondo de um pensamento metafísico, além de considerações de Neimanis, como base teórico-crítica foram utilizadas contribuições de Marilena Chaui (1985) e Christine Greiner (2022), conjugando estudos dos campos da história cultural, da filosofia e das artes.

